Domingo, 4 de Dezembro de 2011

Dime Quién Soy - Julia Navarro

"Um repórter recebe uma proposta para investi a vida movimentada da sua bisavó, uma mulher da qual apenas se sabe que fugiu de Espanha abandonando o seu marido e filho pouco antes de rebentar a Guerra Civil. Para a resgatar do esquecimento, deverá reconstruir a sua vida desde os primórdios, seguindo os passos da sua biografia e encaixando, uma a uma, as peças do imenso e extraordinário puzzle da sua existência. Marcada pelos homens que passaram pela sua vida - o empresário Santiago Carranza, o revolucionário Pierre Comte, o jornalista norte-americano Albert James e o médico militar na Alemanha nazi Max von Schumann - a vida de Amelia Garayoa é a de uma mulher que aprendeu que na vida não se pode desfazer o passado. Desde a Espanha republicana até à queda do Muro de Berlin, passando pela Segunda Guerra mundial e pelos anos obscuros da Guerra fria, esta burguesa e revolucionária, esposa e amante, espia e assassina, actuará sempre de acordo com os seus princípios, enfrentando todos e cometendo erros que não terminará de pagar."

Dime Quién Soy, lido em espanhol, exactamente antes de sair a versão portuguesa, Diz-me Quem Sou.

Antes de mais devo começar por dizer que aguardei este livro durante mais de um ano, à espera que fosse editado em português porque é uma autora com quem não me preocupo em gastar dinheiro. Portanto, quase todas as semanas lá ia eu percorrer as lojas online para ver se já tinha sido editado. Ao fim de algum tempo desisti e decidi adquirir o livro em espanhol. Achei que não ia ser difícil perceber - e não foi, acho que até aprendi a hablar un poquito (mas não a escrever). Isto para dizer que ontem ao folhear o catálogo de Natal da Fnac deparei-me com o raio do livro. Argh!

Falando do livro em si. Acompanho a Julia Navarro desde A Irmandade do Santo Sudário, passando pela Bíblia de Barro e chegando a'O Sangue dos Inocentes. É uma autora que eu simplesmente adoro e quando apareceu este livro eu disse simplesmente que o queria. Confesso que nem sequer li a sinopse. Por isso quando comecei a ler apanhou-me um bocadinho de surpresa, uma vez que não tem nada a ver com o tipo de romance a que os três primeiros livros pertencem. Apesar de ser um livro que é escrito hoje (o jornalista que escreve a biografia é contemporâneo), 90% do livro é passado no século XX, podia incluir este romance em literatura histórica - normalmente não a minha leitura preferida. Dito isto, este não foi de certo o meu livro preferido da Júlia.

Para além disso, para além de ser um romance histórico, existe uma parte da história que é muito localizada, nomeadamente em Espanha, a parte da história que se foca na Guerra Civil. Fiquei um pouco descontextualizada. Durante todo o livro acompanhamos a história de uma mulher que passou por alguns dos grandes acontecimentos do século XX - a Segunda Guerra Mundial (que estudei), a Guerra Fria (que estudei), a Queda do Muro de Berlim (que estudei) - enfim, não me lembro de praticamente nada da Guerra Civil espanhola. Tendo em conta que é nesta época ou imediatamente antes, que começa a história de Amelia, houve muito do que então se aconteceu que me passou ao lado. Este é o outro ponto negativo, para mim, a apontar (de certo haverão muitos espanhóis que acharam estes capítulos fascinantes).

Relativamente à personagem principal, Amelia,é difícil apaixonarmo-nos por uma mulher que abandona o filho nos seus primeiros meses de vida, que abandona o marido para fugir com o amante (ainda que se justifique dizendo que foi pelo bem do comunismo). Tendo em conta que a aventura só começa efectivamente depois deste abandono, quando começamos a viagem já existe um preconceito no que toca a esta personagem. É preciso muito tempo e muitos pedidos de desculpa para a compreendermos, perdoarmos ou ignorarmos este pecado. No entanto, é esta dupla personalidade que torna Amelia tão excitante: filha amada e mãe odiada, mulher e amante, espia e assassina, inocente e sedutora, enfim, um misto de adjectivos contraditórios.

No entanto, e apesar de muitas aventuras, inclusivamente a um ritmo alucinante, não posso deixar de negar que o livro ao fim de alguma páginas (o livro tem 1056 páginas), a narrativa torna-se monótona. E mais do que isso, Guillermo parece uma marioneta. Vais entrevistar esta senhora, agora vais ali saber mais um pouco disto, volta para eu te dar mais indicações, então como vai a biografia?, etc. O rapaz só tem de fazer o que lhe mandam.

E agora que falo no Guillermo, é bisneto de Amelia, que vive numa família que simplesmente escolheu esquece-la. Santiago proibiu de se falar no seu nome e assim foi, até chegarmos ao tempo actual onde uma tia de Santiago lhe pede para iniciar a investigação desta misteriosa mulher. Acho que Julia Navarro escolheu a personagem com muito cuidado. É um jornalista que opta por não se colocar sob qualquer idealismo. E do pouco que conheço de Espanha e do pouco que pude ler em algumas críticas espanholas, parece bem claro, que é um país que vive à base de idealismos. Portanto, provavelmente o que Julia tentou fazer foi criar uma personagem que contasse a história espanhola e mundial de forma objectiva, sem preconceitos ou opiniões. E acho que o conseguiu. Neste aspecto já anteriormente (noutros livro) o havia feito e conseguido. Acho que não o posso negar neste livro.

Ao ler o livro, para além de conhecer um pouco melhor a história espanhola, pelo menos uma parte dela, tive também a oportunidade de encontrar num só livro os momentos mais significativos do século XX, e ainda por cima do ponto de vista de uma mulher, que mais do lutadora dos direitos civis, lutava igualmente pelos direitos das mulheres. Não posso dizer que tenha pegado no livro e lido de um só fôlego, foi uma leitura morosa mas ao mesmo tempo aventurosa. Sentimo-nos como parte da história e isso só pode ser bom. Estarmos num momento do passado e presenciá-lo como se lá tivéssemos estado.

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